23.12.16



Quando no início deste ano resumi tudo aquilo que esperava dele, estava longe de imaginar tudo aquilo que ia ter pela frente. E disse eu baixinho, como quem acredita que o segredo é a alma do negócio: Para dois mil e dezasseis o que eu espero é estabilidade, harmonia e equilíbrio. Sem picos de felicidade ou de dramas, apenas um ajuste entre tudo e paz de espírito.
Sempre fui uma pessoa de datas, de memória fotográfica e com a capacidade de refazer passo a passa acontecimentos que se passaram há anos atrás. Mas mesmo que fosse a pessoa mais distraída do mundo, era incapaz de deixar escapar o peso que o dia 13 de cada mês me trouxe ao longo deste ano. E eu, que nunca fui supersticiosa, tive a prova que as maiores tragédias não precisam de combinações ocultas para acontecer. Estava longe de imaginar que este ano me ia retirar para sempre um dos meus maiores pilares, fazendo-me entrar de forma praticamente irreversível numa sala de isolamento onde o vazio impera e o silêncio é a minha maior companhia. Para uma pessoa como eu, sempre habituada a ser desenrascada e a passar por cima dos problemas cuja resolução não depende de mim, foi um choque perceber que há dores que não são possíveis de escalar, que a vida não segue igual depois da morte de quem amamos. Neste caso, ser prática não me ajudou a superar a dor – apenas me fez adiá-la. Quando morreste toda a gente sucumbiu e eu, que sinto as dores dos outros como se fossem minhas, preocupei-me primeiro em tentar reerguer quem me rodeava e guardei a minha dor numa caixinha e deitei fora a chave. Depois daquele mês não chorei mais. Cá dentro doía, mas por fora era trampolim sempre que alguém se deixava tombar. O mundo parou para mim naquele dia. Afastei-me da escrita, afastei-me da fotografia, afastei-me de quem não se aproximou de mim. Deixei de procurar as pessoas, deixei de as permitir ler o que me ia na alma, deixei de me conhecer. Afastei-me de todos aqueles com quem não era obrigada a partilhar um espaço físico- e tal ação não foi premeditada nem foi sequer um escudo para evitar mais dor. Simplesmente vi-me perdida no mundo, senti-me de novo uma criança indefesa, não me conhecia. Passei as férias de Verão praticamente sozinha em minha casa, limitei o meu círculo de pessoas à família e ao André, pois eram os únicos que sabiam a dor que eu sentia – por também a sentirem – e não me julgariam por qualquer acção ou reacção.
Foi no dia do meu aniversário – que pela primeira vez em anos decidi passar longe dos meus amigos e da minha família, sem grandes jantares ou festejos – que percebi que não estava bem e que a pessoa que eu estava a ser ao longo deste ano não era realmente eu. Percebi que o silêncio e a solidão são necessários mas em excesso podem ser nocivos. Pela primeira vez em meses voltei a chorar. Faz-me tanta falta ouvir a tua voz que chega a ser uma dor física que angustia e me restringe a essência. Admito, perdi-me. No entanto, o dia 2 de setembro trouxe até mim tudo aquilo que eu precisava para me reerguer: coragem, paz de espírito e vontade de encontrar o equilíbrio emocional que tanto precisava para poder voltar a relacionar-me com quem me rodeia e comigo mesma.
Para além da família, do André, dos meus amigos e do trabalho, a minha motivação passou a ser também a praxe. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que fui acolher os caloiros, levá-los às salas, incentivá-los a ficarem no final da tarde para a primeira praxe. Incrível como três meses depois me lembro daquele dia como se fosse hoje: daqueles que pensei não durarem mais de uma semana, daqueles que pareciam ser talhados para a praxe. É incrível olhar para o bloco e ver como de facto conseguimos passar para aqueles miúdos o amor que temos ao nosso curso; vê-los cantar as nossas músicas com toda a garra, cantar com eles as músicas que eles próprios criam… Tudo isso me fez ganhar um pouco mais de ânimo. Há pequenas frases que nos marcam, e ter pessoas que duas semanas após a primeira praxe já lamentavam o facto de o trabalho me roubar tempo para praxar porque eu “faço falta” ou ter pessoas que, agora que já começam a perceber melhor a gestão cirúrgica que faço do meu tempo, me dizem que admiram o facto de eu ser tão independente, de não descurar as relações pessoais, os estudos, o trabalho e ainda assim arranjar tempo para estar presente nos momentos que são tão marcantes para eles (e, diga-se de passagem, para mim também). Vestir o preto trouxe ao de cima todos os sonhos que carregava no meu primeiro ano, fez-me ver que estou bem encaminhada para os concretizar aos poucos, relembrou-me que o melhor que levamos da universidade, como da vida, são as pessoas com quem nos cruzamos.
E, por último, era impossível não referir o meu maior pilar. Não é fácil ver a pessoa que amamos a sofrer, vê-la perder-se e não conseguir fazer nada porque não há forma de combater os esqueletos que a outra pessoa tem no armário. Ainda assim, nunca me falhou. Atendeu sempre as chamadas a meio da noite, mudou os planos todos apenas porque eu já não aguentava mais o sufoco que trazia dentro do peito, trocou tardes românticas ou jogos de futebol por saber que os meus fins-de-semana eram passados longe de casa e que onde quer que estejamos, desde que estejamos juntos, somos o lar mais estável. Por preferir ser o saco de pancada quando a revolta com a vida me fazia querer destruir tudo, por ter sempre um ombro amigo para mim e a mão estendida para me resgatar do tsunami emocional que tantas vezes me fazia perder o pé e o rumo. Por ser sempre o melhor de cada ano, e ser mais e mais a cada ano que passa.
O que eu espero para dois mil e dezassete? Aprendi a não esperar nada. Vai ser o ano de pura e simplesmente agir. Pegar de novo em mim e colocar-me a caminho. No ano em que a licenciatura acaba e que estou entregue a mim mesma, tenho a certeza que serei o meu melhor guia. Serei farol de mim mesma e não me deixarei abalar se encontrar um caminho sem saída – porque nem mesmo o sentido proibido me fará recuar se eu achar que é por ali que chego ao que realmente quero.

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