18.11.13


Se calhar também devia falar da tua morte. Da forma como morreste, como me morreste desde que nasci e como ressuscitaste para mim pouco antes de morreres. Eu sabia, sempre soube que estavas doente. Mas na inocência dos meus 11 anos não quis acreditar que fosse possível uma avó morrer antes de a vermos ficar com o cabelo branco. Pele enrugada sempre tiveste, a vida não foi fácil para ti e era no rosto que ficavam as marcas dela. No rosto e no estômago, no fígado, no corpo. Cada um aguenta a vida como pode e eu não te condeno por te teres amparado nisso. Sabes que eu não sou de criticar ninguém, como poderia ter coragem para te condenar a ti? Logo a ti... Não gosto quando as pessoas dizem "eu sei que está aqui comigo" e se referem a quem morreu. Porque eu não queria que estivesses cá de forma metafórica, queria ter-te tido comigo fisicamente e durante mais tempo. Não acredito que é possível os mortos estarem cá mas no entanto escrevo-te na primeira pessoa e trato-te por tu. Sabes que não trato assim a minha outra avó, a que ainda cá está. Talvez seja por teres morrido nova, talvez seja por não te ter visto como avó mas sim como uma prima mais velha e muito afastada. Talvez seja por mal te ter visto. És um capítulo da minha vida feito de incertezas, dás azo a tantas interpretações que eu, de tão indefinida seres, não sei se algumas coisas foram como me lembro. Dizem que todas as memórias que temos de antes dos nossos quatro anos são imaginadas, e talvez seja isso, precisava de quatro anos para te saber bem. Lembro-me de cada diálogo, lembro-me da tua voz, mas de forma tão nítida que até parece que estás dentro da minha consciência a repetir aquelas palavras: eu estou muito cansada, não sou inteligente mas gosto de ti. Eu sei avó, eu sei. Não tens sequer que pedir desculpa, eu perdoo-te ainda antes de errares. Dizem que o amor é assim, cego. Por vezes o amor também fica apenas pelos olhares. E eu guardo o teu, o último, deitada naquela cama insípida. Nunca te disse adeus avó, não te vi num caixão nem acredito que estejas debaixo da terra. São poucas as imagens que tenho tuas, ou contigo, mas sei como te quero guardar: com esperança. 

3 comentários:

mariana disse...

é um bocado de ti, tão bonito :)

Mariana disse...

"Por vezes o amor também fica pelos olhares"perdi a minha mãe aos onze anos também... Custa apercebermo-nos que o tempo foi tão pouco quando deveria ter sido o contrário...

gosto da forma como escreves
**

disse...

oh como eu gostei de ler isto, como me comovi com a maneira como juntaste as palavras, tão perfeitamente, que parecias angélica. olha, adorei, mesmo. há muito que não gostava tanto de ler algo como li agora aqui. tens clemência nas palavras, e nem todos conseguem tê-la!