21.10.13

Tiago Bettencourt - O Lugar



Vê-se a escuridão, sente-se a paz assustadora da noite em nós, em quem somos, em quem fomos, onde estamos. Todos compostos de pequenas partículas imóveis, somos medos e somos mágoas, angústias incompletas e apenas compreendidas no íntimo de quem somos. Deixamo-nos morrer, somos girassóis que se fecham de noite e morrem a cada raio de sol, desnutrindo-se a cada vez que se alimentam. Na complexa ânsia de alcançarmos a plenitude matamos as oportunidades que, por nós criadas, às nossas mãos são amarrotadas e atiradas pela janela, voando no vento frio da noite. As noites seriam menos tempestuosas se me deixasses abrigar em ti, os dias seriam mais calmos se não adivinhássemos noites calmas para os outros e nos deixássemos levar pelos cânticos leves mas nocivos de quem tem ciclones no peito e não tem lugar. O lugar, o verdadeiro, aquele em que somos completos, em que restituímos tudo aquilo nos morreu, tudo aquilo que morremos. Onde tudo morre tudo pode renascer, e eu, que renasci quando me tocaste no ombro naquela noite onde o frio nos toldou os gestos e me deixei render a ti, quando descobri a casa onde posso adormecer passei a olhar o amor nos olhos sempre que me deixaste descobrir o mundo inteiro que a noite me roubou. Aqui tudo é tão novo, tudo pode ser amor. O amor, esse sim é o meu lugar.

2 comentários:

Emilie Lorena disse...

O amor pode ser tão reconfortante.

Mariana disse...

"...de quem tem ciclones no peito e não tem lugar" transformas a tua escrita numa labirinto emocional... está espetacular, adorei ler