28.9.13

José & Pilar

É impossível ver este filme sem, a dada altura, nos crescer um aperto no peito e um nó na garganta. Porque sabemos que Saramago já morreu. Começamos o filme a ouvir falar da morte, do amor, de tudo, e tudo faz sentido porque sabemos como foi. Uma voz tantas vezes abafada mas que nunca ninguém conseguiu calar. Comprei o meu primeiro livro de Saramago, Deste Mundo e do Outro, poucos dias antes de ele ter morrido. Tinha lido apenas uma crónica ainda, sobre o Sorriso, a parte de mim morreu naquele dia. Não percebi bem porquê, mas depois fui lendo outras obras, fui aprendendo mais sobre a vida e percebi que há pessoas que nasceram com a missão de abrir os olhos ao mundo. Talvez não ao mundo, mas aos que se querem fazer de cegos. Não o são mas tentam sê-lo. A certa altura do filme todos lamentámos não o ter conhecido mais cedo, não termos aproveitado o privilégio de viver mais com a presença dele no mundo. Tenho muita pena de não poder receber um autógrafo dele, tenho medo de saber que todos os livros que posso ler já estão escritos. Por isso me custa muito pegar num livro de Saramago e lê-lo: será uma aventura vivida mas que, um dia, lido o último da lista, não poderá ser repetida. Não sei se Saramago algum dia desculpou o facto de não ter sido mais amado pelo seu país. Talvez sim. Acredito que sim, e acredito que lhe custe um pouco mais ver que preferimos ficar cegos. Aconselho que vejam este filme e que leiam Saramago, sem o preconceito que é ler Saramago em Portugal.

«Não nos esquecemos de ti, agora não vás tu esquecer-te de nós.»

3 comentários:

Lúcia disse...

o recomeço é assustador, mas depois, é gratificante

Blackbird disse...

Ainda não o vi mas quero muito fazê-lo...

Hipster Karenina disse...

Quase me fizeste soltar uma lágrima :)
Já agora, deixo-te aquilo que escrevi há uns meses: http://onemovieaweekon.tumblr.com/post/52868817407/vi-este-filme-pela-primeira-vez-ha-cerca-de-dois