8.7.12

Cont(r)a Corrente - o necessário

Uma boa companhia. Começam a noite a prometer que se vão deitar cedo e dizem que está tudo bem. Acabam a noite a chorar. Tudo o que se passa desde o momento inicial até ao momento final pertence ao segredo dos deuses. 
Duas pessoas totalmente diferentes, que em comum apenas têm o facto de se enganarem a elas próprias. Uma convenceu-se de que ama a pessoa que vê apenas três vezes por ano, que a trata com mimos e prendas e que lhe dá tudo o que precisa. A outra detesta aquele ser de quem apenas um "olá" mais expressivo lhe parece carinho a mais. A primeira acha que todo o carinho que tem é pouco. A segunda acha que todo o carinho que tem é demasiado.
São duas da manhã e ainda não pararam de conversar. Já vão em cinco horas de partilha. Começaram a falar do emprego que não as preenche e da casa com a qual nem se identificam. 
A primeira sente-se vítima de um amor cruel e sofredor, que lhe levou o alma para dois mil quilómetros a Este do seu corpo. A segunda sente-se sortuda por não estar presa a uma alma que consumiria a sua, vive bem nisso de se contentar com os corpos que a acompanham nos devaneios mais carnais, sem perguntas, sem palavras que possam prender e sem carinho, o que ela tanto repudia.
São quatro da manhã e já estão arrependidas de ter começado a conversar.
A primeira inveja a liberdade e desprendimento da segunda; a segunda inveja a estabilidade e conforto da primeira.
São seis da manhã e ambas vão dormir, finalmente. Cada uma na sua casa, mas muito próximas. Ambas de lágrimas nos olhos, ambas a aperceberem-se que uma conversa pode mudar tudo. E se ambas se achavam as mulheres mais felizes do mundo no início da conversa, ambas se aperceberam que são apenas sobreviventes de uma rotina que as sufoca.
Barcelos, 08 de Julho de 2012

12 comentários:

Patrícia disse...

gostei*

m. disse...

Acho que, no fundo, todos nós nos apercebemos disto que aqui escreveste - e muito bem!

Patrícia disse...

eu estou bem. sinto falta dele, mas aguento-me firme. tem que ser :)

Helena disse...

Texto bastante repleto de diversas emoções, gostei.

cláudiagomes. disse...

há uma parte deste texto que sou eu sem tirar nem por.

caroline pipi disse...

adorei!

m. disse...

Mas o que é que eu escrevi assim de tão importante? Apenas disse a verdade.

cláudiagomes. disse...

na parte do: a segunda sente-se sortuda (...) o que ela tanto repudia.
é assim que me sinto. tal e qual.

Mariana disse...

Vou fazer isso. Obrigada!

Maria Inês. disse...

adorei! :)

Lia disse...

lindo!
e obrigada, mesmo, pelo teu comentário! *

Sara C disse...

está muito bonito (: