18.3.12

Não sei como começar. Sei que vai ser um dos textos mais longos, menos poéticos mas mais importantes da minha vida. As frases iniciais são as mais marcantes: ajudam os indecisos a perceber se querem ou não continuar a ler. Neste caso é um risco. Continuem se quiserem. Posso estar a ser egoísta, mas este texto não é para mais ninguém a não ser para mim. E para Ela. Não, é para Ti. Não estiveste na minha mente desde sempre, e não sei se estarás para sempre.
Escrevo-vos sobre Ela, porque devo-lhe muito, porque é graças à pobre vida dela que eu sei o que quero da minha. Falo-vos, falar-vos-ei da minha avó. Em junho é o sexto aniversário desde a morte dela. É estranho fazer o luto de uma pessoa que nunca nos pertenceu, que nunca foi parte da nossa vida. A minha avó, a mãe da minha mãe, morreu no momento em que se casou com um sacana. Pobrezinha, não lhe chegou o primeiro, arranjou outro igual ou pior. 
O meu avô de sangue é o maior sacana que eu conheço, e eu espero bem nunca mais ter de vê-lo. Aquele traste deixou a minha avó sozinha, no meio da selva, no meio da guerra, em Angola, período da Guerra Colonial, e mandou as filhas de volta para Portugal, dizendo-lhe que a mãe tinha morrido. 
Sim.Sim, sim, sim. A minha mãe chorou duas vezes a morte da minha avó. Encontrou-a, por acaso, num abrigo para retornados, casada segunda vez, com uma vida desgraçada e a chorar a morte das filhas. 
O meu avô violou miúdas, pequenas. Aqui, e em África. Soube isso depois da minha avó morrer. Foi nesse momento em que entendi o porquê de a minha mãe nunca me ter deixado a sós com ele. Não, a minha mãe não estava com ele. A minha mãe não fala com ele. Há anos. E eu também não. Quem nos acompanhava em almoços forçados era a segunda mulher dele, outra cabra. Sim, ela nunca se importou com as pobres meninas. Não as conheço, que me interessa? perguntava ela com aquele ar cínico que caracteriza as maiores cabras que conheço.
Nunca convivi com nenhum dos casais. A minha avó tinha a vida dela. Dura, ingrata. Mas era a vida dela. E eu não sabia de metade. 
Comecei a conviver com ela cerca de meio ano antes de morrer. Não sei bem a duração, não me lembro das datas. Na altura não tinha consciência de como aquele intervalo de tempo me ia marcar. Ela morava no Porto. Levaram-me até casa dela, e eu só questionava o porquê de a visitar agora. Ela tinha dificuldades a falar, e quase não comia. Era magra, mesmo muito magra. A caminho da casa dela, na segunda vez que a vi, a minha mãe disse-me com frontalidade, mas a medo sabes Mariana, a tua avó está muito doente. Tem um cancro. Sabes o que é? Fiquei sem saber o que responder. Nessa altura era uma miúda, andava no meu 4º ou 5º ano, e a informação sobre o cancro não era assim muita. Não havia grande acesso a computadores e internet. Sim, sei. Mas vai passar, eu vou conhecê-la e vou ajudar a superar isto. Incrível como a inocência nos molda... Doeu vê-la naquele dia, foi estranho, foi uma sensação que só agora consegui decifrar. Cheguei a casa naquele dia, e, por acaso, estava a dar uma reportagem sobre crianças com cancro. Sem forças, sem cabelo. Com dores, com enjoos, mas com um sorriso. Fiquei chocada. Como havia eu de agir?
Na terceira vez que fui a casa dela, pedi para ficar um pouco com ela. Ela ouvia mal, tinha um daqueles aparelhos auditivos. Foi a primeira conversa que tive com ela. Sabes, minha Mariana, és muito bonita. Fazes-me lembrar a tua mãe. Não a conheci quando ela tinha a tua idade. a avó está doente, sabes?Claro que sabes, és inteligente. Gostava de acompanhar o teu crescimento. Sei porque é que a tua mãe nunca conviveu muito connosco. Não me perdoou tê-la deixado. Ela diz que sabe que não foi por mal. Mas eu culpo-me a cada dia. Ó, estás-me a conhecer só agora, e eu tão feia, e eu tão fraca. Sei que não tenho cultura, que conheceste pessoas mais interessantes que eu. Gosto de ti minha netinha. Olha, vou desligar o aparelho, estou cansada. Ajudas-me a deitar? Ouvi poucas vezes a tua voz, mas tens o nosso sotaque. Obrigada pela ajuda. Espero que estejas cá quando acordar. Ouvi tudo em silêncio. Ajudei e saí do quarto. Nem uma lágrima.
Só a vi mais uma vez, no IPO. Doeu-me aquele sítio, e não sei se conseguirei entrar lá de novo. Já quase não falava. Não comia. Era cancro no estômago. Tinha sido operada e achava que já estava curada. Eu também achava. Foi a última vez que a vi.
O resto, bem, vocês sabem e eu não consigo descrever hoje. 
Mas agora tinha tanta coisa para lhe dizer, tantas palavras para responder àquela que foi a única conversa nossa. Que foi apenas dela. Hoje, tenho 16 anos e sei que devo muito àquela mulher. À minha avó. À avó Brilhantina. Não estou certa que exista vida depois da morte. Eu conheci-a para a perder. Para vê-la morrer. Mas eu juro-te, eu juro-te vó, eu não vou deixar que ninguém faça comigo o que eles fizeram contigo. E eles vão pagar, TODOS, pelo que te fizeram, pelo que nos fizeram.


da tua mariana. 


3 comentários:

cláudiagomes. disse...

tem calma e força, pequena mariana <3

ParadoxoSD disse...

Olha, li o texto todo Duas vezes. Adorei mesmo.... O amor enorme que se tem por uma pessoa de sangue, mesmo tendo sido escasso a convivência... A minha avó tambem está muito mal, nao tem nenhuma doença em concreto, mas a velhice anda-a a apanhar demasiado depressa... e quanto mais crescida fico, mais temo a perda do meu único parente que me resta da 3ª idade.... Mais uma vez, adorei o texto**

catia disse...

muito bonito mariana