27.12.16

[uma forma de ultrapassar a morte é encará-la. assumir que a vida continua depois dela, mesmo que para quem fique nunca mais vá ser igual. não têm sido fáceis estes meses, mas ainda assim fica cada vez mais fácil respirar. trabalhar na véspera de Natal até à hora de jantar foi a minha tábua de salvação para não passar o dia a pensar como ia ser duro ter menos uma pessoa à mesa. ainda assim, e para que seja possível manter a sanidade mental de quem por cá ficou, é necessário continuar a alimentar a magia da época. foi por isso que, depois de um silêncio profundo, todos respiramos fundo e, de voz embargada, rezamos o terço como os nossos pais faziam nos seus tempos de miúdos e prestamos a homenagem possível. se nos estiveste a ver, sei que te deixamos orgulhosos.]
[Talvez estejamos de passagem pela vida apenas em busca de inspiração, uma estrela que nos guie ou um lugar a que possamos chamar de lar.]

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23.12.16



Quando no início deste ano resumi tudo aquilo que esperava dele, estava longe de imaginar tudo aquilo que ia ter pela frente. E disse eu baixinho, como quem acredita que o segredo é a alma do negócio: Para dois mil e dezasseis o que eu espero é estabilidade, harmonia e equilíbrio. Sem picos de felicidade ou de dramas, apenas um ajuste entre tudo e paz de espírito.
Sempre fui uma pessoa de datas, de memória fotográfica e com a capacidade de refazer passo a passa acontecimentos que se passaram há anos atrás. Mas mesmo que fosse a pessoa mais distraída do mundo, era incapaz de deixar escapar o peso que o dia 13 de cada mês me trouxe ao longo deste ano. E eu, que nunca fui supersticiosa, tive a prova que as maiores tragédias não precisam de combinações ocultas para acontecer. Estava longe de imaginar que este ano me ia retirar para sempre um dos meus maiores pilares, fazendo-me entrar de forma praticamente irreversível numa sala de isolamento onde o vazio impera e o silêncio é a minha maior companhia. Para uma pessoa como eu, sempre habituada a ser desenrascada e a passar por cima dos problemas cuja resolução não depende de mim, foi um choque perceber que há dores que não são possíveis de escalar, que a vida não segue igual depois da morte de quem amamos. Neste caso, ser prática não me ajudou a superar a dor – apenas me fez adiá-la. Quando morreste toda a gente sucumbiu e eu, que sinto as dores dos outros como se fossem minhas, preocupei-me primeiro em tentar reerguer quem me rodeava e guardei a minha dor numa caixinha e deitei fora a chave. Depois daquele mês não chorei mais. Cá dentro doía, mas por fora era trampolim sempre que alguém se deixava tombar. O mundo parou para mim naquele dia. Afastei-me da escrita, afastei-me da fotografia, afastei-me de quem não se aproximou de mim. Deixei de procurar as pessoas, deixei de as permitir ler o que me ia na alma, deixei de me conhecer. Afastei-me de todos aqueles com quem não era obrigada a partilhar um espaço físico- e tal ação não foi premeditada nem foi sequer um escudo para evitar mais dor. Simplesmente vi-me perdida no mundo, senti-me de novo uma criança indefesa, não me conhecia. Passei as férias de Verão praticamente sozinha em minha casa, limitei o meu círculo de pessoas à família e ao André, pois eram os únicos que sabiam a dor que eu sentia – por também a sentirem – e não me julgariam por qualquer acção ou reacção.
Foi no dia do meu aniversário – que pela primeira vez em anos decidi passar longe dos meus amigos e da minha família, sem grandes jantares ou festejos – que percebi que não estava bem e que a pessoa que eu estava a ser ao longo deste ano não era realmente eu. Percebi que o silêncio e a solidão são necessários mas em excesso podem ser nocivos. Pela primeira vez em meses voltei a chorar. Faz-me tanta falta ouvir a tua voz que chega a ser uma dor física que angustia e me restringe a essência. Admito, perdi-me. No entanto, o dia 2 de setembro trouxe até mim tudo aquilo que eu precisava para me reerguer: coragem, paz de espírito e vontade de encontrar o equilíbrio emocional que tanto precisava para poder voltar a relacionar-me com quem me rodeia e comigo mesma.
Para além da família, do André, dos meus amigos e do trabalho, a minha motivação passou a ser também a praxe. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que fui acolher os caloiros, levá-los às salas, incentivá-los a ficarem no final da tarde para a primeira praxe. Incrível como três meses depois me lembro daquele dia como se fosse hoje: daqueles que pensei não durarem mais de uma semana, daqueles que pareciam ser talhados para a praxe. É incrível olhar para o bloco e ver como de facto conseguimos passar para aqueles miúdos o amor que temos ao nosso curso; vê-los cantar as nossas músicas com toda a garra, cantar com eles as músicas que eles próprios criam… Tudo isso me fez ganhar um pouco mais de ânimo. Há pequenas frases que nos marcam, e ter pessoas que duas semanas após a primeira praxe já lamentavam o facto de o trabalho me roubar tempo para praxar porque eu “faço falta” ou ter pessoas que, agora que já começam a perceber melhor a gestão cirúrgica que faço do meu tempo, me dizem que admiram o facto de eu ser tão independente, de não descurar as relações pessoais, os estudos, o trabalho e ainda assim arranjar tempo para estar presente nos momentos que são tão marcantes para eles (e, diga-se de passagem, para mim também). Vestir o preto trouxe ao de cima todos os sonhos que carregava no meu primeiro ano, fez-me ver que estou bem encaminhada para os concretizar aos poucos, relembrou-me que o melhor que levamos da universidade, como da vida, são as pessoas com quem nos cruzamos.
E, por último, era impossível não referir o meu maior pilar. Não é fácil ver a pessoa que amamos a sofrer, vê-la perder-se e não conseguir fazer nada porque não há forma de combater os esqueletos que a outra pessoa tem no armário. Ainda assim, nunca me falhou. Atendeu sempre as chamadas a meio da noite, mudou os planos todos apenas porque eu já não aguentava mais o sufoco que trazia dentro do peito, trocou tardes românticas ou jogos de futebol por saber que os meus fins-de-semana eram passados longe de casa e que onde quer que estejamos, desde que estejamos juntos, somos o lar mais estável. Por preferir ser o saco de pancada quando a revolta com a vida me fazia querer destruir tudo, por ter sempre um ombro amigo para mim e a mão estendida para me resgatar do tsunami emocional que tantas vezes me fazia perder o pé e o rumo. Por ser sempre o melhor de cada ano, e ser mais e mais a cada ano que passa.
O que eu espero para dois mil e dezassete? Aprendi a não esperar nada. Vai ser o ano de pura e simplesmente agir. Pegar de novo em mim e colocar-me a caminho. No ano em que a licenciatura acaba e que estou entregue a mim mesma, tenho a certeza que serei o meu melhor guia. Serei farol de mim mesma e não me deixarei abalar se encontrar um caminho sem saída – porque nem mesmo o sentido proibido me fará recuar se eu achar que é por ali que chego ao que realmente quero.

14.9.16

Não voltei a chorar. Desde aquele mês terrível, não voltei a chorar. Não por defesa, não por querer mostrar-me forte - definitivamente, não foi por não estar a sofrer. Não sei porquê, mas não o fiz mais. Dói-me a ausência de cada vez que entro pela porta da casa dentro. Dói-me o plural em cada vez que falo nos "meus avós", mas não faz sentido referir um sem o outro quando completos eram o verdadeiro exemplo de união. Não voltei a chorar até ao meu aniversário. Ali, no silêncio tranquilo de uma noite de verão à beira da piscina doeu-me a morte de novo. Finalmente voltei a cair em mim e a perceber o que foi este último ano, tudo aquilo que trouxe, tudo aquilo em que me transformou. Há um ano atrás tudo o que eu queria era mudança, tudo o que eu esperava era que a liberdade soubesse bem. E soube. O que eu não sabia era que as mudanças podiam ser diferentes do que eu esperava, que podiam ser nos campos que julgava firmes e eternos. O que eu não sabia era que as mudanças podiam ser tão drásticas e abalar tão fortemente a estrutura de uma alma. Admito, perdi-me. Afastei-me de todos aqueles que a convivência diárias e os compromissos sociais não me obrigavam a estar presente. Apreciei, em alguns momentos de forma exagerada, a minha própria companhia. Abracei a solidão com toda a força e fiz dela refúgio e escudo. Precisei de muito tempo até conseguir conversar comigo mesma e perceber em que aspectos realmente mudei, e em que medida. Ainda vou descobrir cicatrizes em mim, e eu sei disso. Passados sete meses voltei a chorar. Porque tudo o que eu queria neste mundo era ter ouvido a tua voz naquela chamada que correu todos os elementos da família. Tudo o que eu queria era sentir, como sempre, que não sabias o que me dizer para além do típico "Parabéns, e que se repita por muitos anos!". Porque não se vai repetir. Porque tu não estás cá. Porque a partir de agora vai ser sempre a doer mais e mais: o Natal, a passagem de ano, o dia 13 de fevereiro que será sempre um dia de azar mesmo que não calhe a uma sexta-feira. Porque embora saiba a pouco, ter-te eterno na memória e no coração vai ser a única maneira de nos manter unidos para sempre. Falta-me o ar só de pensar que não estarás cá para nos ver ser finalistas - mas sei que nos vais abençoar, onde quer que estejas. 
Estes meus vinte anos não foram nada do que eu no fundo desejei para mim. Diz a música que a vida é sempre a perder. Agora percebo-lhe o sentido.

30.5.16

Andei meses a evitar este espaço, como se confrontar-me com o silêncio e uma página em branco fosse expor todas as minhas feridas. Evitei escrever da mesma forma que evito falar dos meus problemas, escapando sempre com uma piada forçada ou com um olhar que pede compreensão. Reli os últimos tempos aqui escritos e não encontro, em mim, a pessoa que aqui escrevia. Não reencontro a pureza e a magia com que encarava o mundo, não consigo colocar as lentes do otimismo.